Perspectivas para o futuro.

A Crise causada pela pandemia no ano de 2020 está aparentemente nos finalmentes. O risco de solvência das empresas, prejuízos nos balanços e paralização no consumo ficou no passado e a retomada econômica foi melhor que o esperado. Entretanto, essa mesma retomada e o excesso de estímulos financeiros dos governos trouxeram à tona velhos riscos, já conhecidos dos investidores experientes e que vieram assombrar os investidores iniciantes. A inflação, o risco fiscal, e novos riscos, tais como regulamentações do governo chinês, Talibã retornando ao poder no Afeganistão e, como sempre, os políticos brasileiros fazendo “cabo de guerra” em Brasília, além da variante delta que se propaga rapidamente trouxeram algum pânico aos mercados.

Esses são assuntos que nas últimas semanas vem pressionando os preços na bolsa brasileira e levando volatilidade ao mercado. Considerando as pautas, vamos resumir o cenário macro que anda influenciando o mercado:

PRESSÃO INFLACIONÁRIA:

Primeiramente, e já à vista a algum tempo, temos a pressão inflacionária, que vem fazendo o povo perder seu poder de compra rapidamente, ainda que o BC esteja indicando que vai agir para retomar o controle. O resultado disso é um aumento na taxa SELIC e em sua expectativa futura, principal instrumento de política monetária brasileira para conter a inflação, causando desconforto em setores específicos da bolsa que acabam por ver o custo do dinheiro mais caro, que dificulta o seu financiamento e impacta seu crescimento, embora, pessoalmente, creio que ainda estamos com a taxa de juros baixa e ainda não haverá impacto significativo nos resultados corporativos.

RISCO FISCAL:

O risco fiscal ainda afronta as expectativas da dívida pública. Por um período o mercado enxergou que o Brasil estava no caminho certo, procurando não romper o teto de gastos, privatizações gerando renda ao governo, entre outras iniciativas que foram bem-vistas. Entretanto, o congresso e o executivo se mantém em uma briga que acaba por colocar em risco todas essas iniciativas, sem comentar, por enquanto, Reforma tributária, com potencial de queda na arrecadação, e a PEC dos Precatórios, que ainda tem um caminho longo pela frente.

Mas o que é o risco fiscal? E por que devemos nos preocupar com ele? Começando do básico, para manter um equilíbrio das contas públicas o governo precisa arrecadar mais do que gasta. Quando o governo gasta mais que arrecada, se encontra em uma situação de déficit fiscal e na necessidade de pegar dinheiro emprestado para cumprir com seus compromissos financeiros. Buscando reverter esse cenário as autoridades responsáveis devem elaborar um plano de metas para reduzir o gasto público e aumentar a arrecadação. Por diversos fatores é possível que o plano não dê certo e o endividamento continue aumentando, de forma com que o mercado financeiro e investidores passam a temer que a situação fiscal chegue a um patamar incontrolável e resulte em um default, calote do governo.

Quando um país declara default ele perde sua credibilidade, reinando a desconfiança dentre os investidores e consequentemente há uma fuga de capital do país. Afinal, quem gostaria de emprestar dinheiro a um mal pagador? Esse default pode impactar juros, inflação e crescimento do país. Em situações como essa, a nota de crédito, rating de segurança da dívida do país para os credores, sofre uma grande redução e a captação de recursos fica cada vez mais difícil (e cara!). Por todos esses fatores, podemos entender a desconfiança do investidor, que vem crescendo a medida que assiste todo o malabarismo brasileiro com as contas públicas, que vão de pedaladas fiscais ao parcelamento de condenações judiciais do poder público.

FATORES GLOBAIS:

Além dos fatores internos. o cenário global também passa por um momento de estresse, causado também pelo resultado do crescimento do mercado chinês. O “mísero” crescimento de 8%, obviamente mísero de forma irônica, era esperado pelo mercado em geral na casa dos 11%, levando a revisões da projeção do crescimento de outros países, como o Brasil que lhe fornece minério e outras commodities.

O fato da China ter obtido a recuperação do Covid antes do resto do mundo e ser o pais em maior nível de crescimento atualmente, torna seu PIB abaixo da expectativa muito relevante, mas além disto a potência asiática vem brigando com o mercado impondo novas regulações para  as empresas no país, tentando alcançar maior controle governamental e findar monopólios, gerando ainda mais estresse e incertezas.

Por fim, nesta semana tivemos a retomada do Talibã ao poder do Afeganistão. É valido lembrar que qualquer movimento de tensão envolvendo guerra causa desconforto aos investidores. O grupo é conhecido por seu extremismo, falta de previsibilidade em suas ações e o país, por estar geograficamente localizado como um ponte à Ásia, move com o interesse dos principais players globais.

O LADO BOM:

Devemos também observar as boas notícias que tivemos nesse período! Podemos ressaltar a temporada de balanços, cujas ações que divulgaram seus resultados até agora tivemos por volta de 77% apresentando resultados dentro das expectativas do mercado ou até mesmo acima delas. Em tese, isso reforça a valorização da bolsa, uma vez que o valor das ações são precificados através da sua capacidade de gerar lucros e dividendos.

É claro que o momento de estresse ocasiona correções pontuais, mas o fato é que, se o cenário estivesse menos conturbado, em uma análise de cálculos que levam em consideração os resultados das empresas e a evolução das outras bolsas ao redor do mundo, o Ibovespa deveria estar em torno dos 140.000 pontos, observado que os pares emergentes do Brasil tiveram altas de 20% ano enquanto a nossa bolsa sobe 1%. Dito isso, podemos ver que o problema de fato não são os ativos brasileiros e sim aversão à politica conturbada do pais e outros fatores citados acima.

MR MARKET

Dando um pouco de humor e credibilidade aos comentários acima, segue uma passagem de um dos maiores economistas da história, em 1972 B. Graham afirmou, “A principal causa do fracasso é que os investidores prestam muita atenção no que o mercado de ações está fazendo atualmente”.

Ao fazer isso, o investidor passa a seguir o mercado pra qualquer lado, perdendo uma grande vantagem, que é a capacidade de pensar e tirar suas próprias conclusões. Benjamin Graham usou uma analogia fantástica em seu livro para simplificar essa afirmação. Mais ou menos assim:

Imagine que você possui uma pequena participação em uma empresa privada que possui outro sócio, o Sr. Mercado. Este indivíduo é um investidor repleto de emoções, cujas decisões de investimento são fortemente impactadas por seu humor. Devo acrescentar um detalhe, seu socio Sr. Mercado é bipolar.

Todos os dias úteis, o Sr. Mercado vai ao seu escritório e lhe oferece uma proposta. Nessa proposta, está o preço ao qual seu sócio estaria disposto a comprar sua participação ou vender a dele. Na grande maioria das vezes, quando o humor do Sr. Mercado está controlado, a oferta é condizente com o real valor da empresa. Entretanto, quando o Sr. Mercado está muito eufórico ou totalmente descrente com o futuro, a proposta apresenta preços bastante distorcidos da realidade. O investidor inteligente utiliza essa variação de humor a seu favor. Quando o Sr. Mercado está confiante demais, o investidor inteligente vende sua participação por preços que não seriam possíveis sem tamanha euforia. De forma similar, quando o Sr. Mercado está deprimido, ele oferece sua participação por um preço extremamente descontado, o que leva o investidor inteligente a adquirir a participação.

E você? É um investidor inteligente?

Minha sugestão para momentos de crise é acompanhar o cenário macro e observar se os fundamentos estão se mantendo, atendo-se ao racional nos períodos de incerteza, uma vez que, no longo prazo o que de fato interessa são os resultados das empresas.

Podemos ter boas oportunidades na nossa bolsa atualmente, mas é importante ressaltar para os iniciantes que o momento é de volatilidade e para quem tem um perfil mais arrojado, se não se sentir confortável com esses movimentos bruscos, existem muitas outras oportunidades no mercado fora da bolsa, com risco e resultados alinhados com o perfil de cada um.

Obrigado pela atenção, desejo boa sorte nos investimentos!

Autor :Victor Casagrande assessor de investimentos, com especialização em renda variável e economia com foco no mercado financeiro pelo FGV, experiência em private equity e certificações especiais. Abordando os principais riscos que estão movimentando o mercado e como se preparar para eles.